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O mercado de tecnologia da informação pode entrar em colapso se não

surgir uma oferta de talentos até 2012 no país

Por Gabriel Penna

 

Luiz Cláudio Menezes, 43 anos, presidente da Progress, deixou de ganhar 1,2 milhão de dólares por erros de TI

Quem nunca reclamou do pessoal de tecnologia da informação (TI) que atire o primeiro mouse. Não é fácil manter a paciência quando o computador trava, a rede cai, o programa não roda ou a internet fica lenta. Quando essas deficiências aparecem, a primeira reação nos escritórios e fábricas é culpar os profissionais de tecnologia. E não é por implicância, simplesmente.Muitas vezes a turma do TI não conhece os equipamentos com que trabalha e tem até deficiências na formação acadêmica. Só que mesmo odiados por uns, eles são cada vez mais importantes na estratégia de negócios das empresas. O problema é que um erro deles e a companhia pode perder milhões de reais. O engenheiro carioca Luiz Cláudio Menezes, de 43 anos, sabe bem disso. Ele é presidente da Progress no Brasil, multinacional norte-americana especializada em infra-estrutura de tecnologia. Por culpa da equipe de TI, a empresa deixou de ganhar 1,2 milhão de dólares em um ano.

A Progress inaugurou sua primeira unidade no país em 2006.Após procurar por pessoal qualificado durante três meses e sem condição de estender essa seleção por mais tempo, Luiz Cláudio fechou com os candidatos que lhe pareceram mais adequados para três vagas de gerente de TI nas áreas de pré-vendas e gestão de contas. Como estávamos lançando um novo serviço, não conseguimos profissionais com experiência e tivemos de contar somente com nosso feeling para escolher os candidatos, diz. A aposta não deu certo. Os gerentes não tinham preparo técnico para atender o que a empresa pedia. Eles gastaram tempo e dinheiro com projetos que não vingaram e perderam clientes com propostas mal elaboradas. Foi um grande fracasso. Isso comprometeu toda a estratégia da empresa, assume o executivo.

Os três gerentes foram demitidos em março deste ano, com menos de um ano de casa. Para contratar seus substitutos, Luiz Cláudio chamou um headhunter, pois percebeu que teria a mesma dificuldade para encontrar pessoal preparado para as funções. Os próximos gerentes, após contratados, serão obrigados a passar por dois meses de treinamento antes de começar a trabalhar. O caso de Luiz Cláudio não é exceção.A turma de TI tem tirado muita gente do sério, tamanho despreparo desses profissionais hoje em dia. Uma pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil revela que 42% de 188 empresas (com mais de 100 funcionários) tentaram contratar especialistas em TI em 2006. Dessas, um terço teve dificuldade para achar pessoal qualificado no mercado: 80% reclamaram de falta de qualificação, 54% da pouca oferta de mão-de-obra e outros 54% da falta de experiência dos profissionais. O levantamento completo foi feito com 2 700 empresas para identificar o uso da tecnologia da informação no trabalho no Brasil (veja mais dados no quadro Pane Digital).

Ao analisar outros dados oficiais, percebe-se como é grave a situação quando se fala em TI.O Ministério da Ciência e Tecnologia prevê um colapso na oferta de gente preparada para assumir as responsabilidades na área no médio prazo.Um levantamento do ministério mostra que havia um déficit de 17 000 profissionais no mercado de tecnologia em 2005. Esse número pode chegar a 213 000 até 2012. Um drama para empresas e parceiros no processo de terceirização de TI. O chamado outsourcing é uma tendência mundial nas organizações e no Brasil já causa preocupação aos prestadores de serviço.

A consultoria Accenture enfrenta essa dificuldade. A líder mundial em consultoria e gestão de TI tem 500 vagas em aberto no país desde março. As oportunidades são para programadores, analistas e gerentes. Para tentar mitigar o problema da qualificação, a Accenture tem investido pesado em treinamento. Fez parceiras com instituições acadêmicas como o Massachusetts Institute of Technology (MIT), dos Estados Unidos, e quer capacitar 370 brasileiros recém-contratados até o fim do ano. Estamos rastreando os profissionais, identificando as principais deficiências e treinando. A meta é quintuplicar nosso quadro no Brasil até 2012, afirma Rodolfo Eschenbach, consultor da Accenture.

Tanta falta de pessoal se deve a dois motivos. Primeiro porque, mesmo lentamente, o investimento em TI nas grandes e médias empresas do país equivalente a 5,5% do faturamento líquido em 2006 tem crescido de 1% a 2% ao ano. Segundo porque as companhias não vão contratar qualquer um como ainda fazem hoje para preencher suas posições em TI.Resultado: os processos de seleção na área ficarão ainda mais rigorosos. Os empresários e os RHs estão percebendo que TI não é apenas um acessório, diz Edgar DAndrea, sócio e consultor em TI da PricewaterhouseCoopers. Ninguém quer mais contratar um executivo ou um técnico para apenas comprar o melhor hardware ou software. A responsabilidade desse pessoal está aumentando e o profissional de TI precisará trazer benefícios reais para o negócio.

O alerta aqui vai principalmente para quem ocupa o cargo de CIO (Chief Information Officer), executivo de TI que se senta à mesa da diretoria para discutir com o comando da companhia o planejamento estratégico da empresa. Ele precisa ser capaz de colocar-se a serviço de outras áreas e não o contrário. Por exemplo, ajudando a área financeira a fazer a integração de sistemas e dados ou auxilando o departamento comercial no desenvolvimento e lançamento de um produto. O profissional que já tem essa competência tem o passe valorizado, claro.Por isso a disputa pelos melhores talentos está acirradíssima, diz o headhunter Benedito Borghi, da consultoria Lopes & Borghi, de São Paulo. As empresas têm de estar dispostas a pagar salários acima da média, bônus e remuneração variável agressivos, explica ele. A Asyst Sudamerica, especializada em gestão e operação de TI, abriu em agosto 30 vagas para analistas de suporte e para atrair profissionais qualificados vai oferecer um pacote com 35 beneficios.

A consultoria pesquisou e descobriu que nos últimos 12 meses o salário de um gerente de TI subiu 5,4%. Em São Paulo, eles recebem, em média, 10 000 reais. O aumento foi maior, de 9,1%, para o nível operacional. Um analista de sistemas sênior passou a ganhar até 6 800 reais por mês na capital paulista. Na Associação Comercial de São Paulo, os profissionais de TI tem salários entre 20% a 30% acima da média de mercado, segundo Fernando Moya, superintendente de RH. A empresa também criou oito faixas salariais em cada cargo para reter os melhores de TI. É a nossa área nobre, não podemos bobear com esses profissionais, diz Fernando. A associação, que administra uma base de dados com mais de 10 milhões de registros de pessoas física e jurídicas, investiu na prata da casa para compor sua equipe de TI. Quase 80% dos funcionários foram treinados na empresa, sendo 40% deles ex-office-boys.

Um desses profissionais é o analista de sistemas pleno Edson Garcia, de 36 anos, que começou a trabalhar como segurança na Associação Comercial. Cansado de ficar parado no mesmo lugar, ele começou a estudar informática por conta própria. Fez um curso de Cobol, linguagem de programação usada na empresa, e conseguiu uma vaga na área de desenvolvimento de sistemas. A partir daí, a própria associação começou a investir nele. Edson já fez quatro cursos de certificação em linguagens de computação e ferramentas de programação para a internet e hoje cursando a faculdade de sistemas de informação, com uma bolsa da empresa que paga 70% da mensalidade. Leio muito sobre as novas tecnologias na internet. Se o chefe pede para fazer algo que não sei, faço e aprendo rápido, diz Edson. É o exemplo de atualização constante, proatividade e comprometimento que precisa ser seguido pelos profissionais de TI.

Fonte: http://vocesa.abril.com.br/edicoes/0110/aberto/informado/mt_245915.shtml 

 

 
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